O ano de 1968 foi e ainda é muito marcante para a história da humanidade. E não foi diferente com os Estados Unidos. O país estava envolvido na Guerra do Vietnã, sofria com assassinatos, conflitos de gerações, confrontos pela integração racial, drogas e revolução cultural. O jornalista Lucas Mendes entrevistou Todd Gitlin, professor de jornalismo e sociologia da Universidade Columbia nos EUA. Entre 1963 e 1964, Gitlin era o presidente da SDS (Students for a Democratic Society), um dos movimentos mais radicais e influentes da época.
Lucas perguntou sobre o ano de 1968 e sua importância, os conflitos ocorridos, os vencedores. Falou sobre os acontecimentos nos EUA e sobre o futuro do país. Gitlin foi bem sincero e opinativo, não escondeu o que realmente pensa e até apontou os erros do seu movimento naquele período.
Gitlin disse que o ano de 68 é considerado por muitos a “quintessência dos anos 60”. Já que, nos EUA, o sistema político estava balançado, o Partido Republicano estava ganhando força e a “monstruosa” Guerra do Vietnã junto com os assassinatos de Bob Kennedy e Martin Luther King abalaram a população.
Ele afirmou que houve um conflito de esquerda versus direita nos EUA. E que a revolução cultural continua até hoje, só que menos radical.
Lucas questionou sobre a falta de educação política que percebeu quando estava em Chicago, durante a convenção do Partido Democrata. Gitlin admitiu que faltava ideologia aos manifestantes que foram as ruas naquele dia. E, como ele conhecia alguns, concordou que não eram pessoas de pensamentos políticos e só pensavam em drogas, raiva e bater em policiais.
Ele declarou que são superficiais as similaridades dadas entre o protesto estudantil em Paris, a revolução cultural chinesa e os acontecimentos no EUA. Completou que as pessoas tendiam a ligar essas ações, mas entre elas há, na verdade, mais diferenças do que pontos em comum.
A respeito dos verdadeiros vencedores daquele ano, Gitlin disse que, no primeiro instante, fala-se de Nixon e do Partido Republicano. Mas, a longo prazo, ele considera “complicado e contraditório” apontar o vencedor. Ressaltou que todos os movimentos promoveram quebra das instituições tradicionais. Porém, olhando para conservadores versus liberais, a vitória foi dos liberais. Eles trouxeram a aceitação de gays, negros e da mulher, salientou o professor.
Gitlin também lembrou que seu movimento estudantil se tornou mais importante do que realmente foi no momento. Ele apontou a construção de fantasia e a recusa de fazer análise relevante da revolução como alguns dos grandes erros do seu grupo.
Já se aproximando mais aos tempos atuais, ele revelou que a invasão da Columbia por estudantes em 68 empurrou intelectuais para o lado conservador e alguns deles acabaram exercendo influência no governo de George W. Bush.
O professor apontou quase nenhuma semelhança entre 1968 e 2008. Mas comentou que acha peculiar o fato de hoje andar pelas ruas americanas e não perceber nenhum sinal de que o país está em guerra.
Gitlin ficou surpreso quando Lucas perguntou se Bush será perdoado. Disse que não há motivos para isso, que o presidente governou sem rumo e que quem chegar ao poder pegará o país em um desastre em todos os setores. Ele também não concorda com as comparações entre John Kennedy e Barack Obama. “John não era radical, era mais experiente e tinha mais aliados. Obama é novato, ainda não foi testado”, afirmou.
O jornalista e sociólogo acredita que os EUA não vão conseguir retomar o papel hegemônico que tinham. Disse que o país não é mais o poder econômico que era e pode até ter ainda poder militar, mas não tem poder moral. Sobre o futuro, ele apenas conclui que não sabe o que pode acontecer, porque não tem certeza se as pessoas aprenderam algo com o desastre pelo qual o país passou.
