O escritor e jornalista Zuenir Ventura é o autor de 1968: o ano que não terminou. Vencedor de vários prêmios, ele relata no livro acontecimentos de um dos anos mais importantes em todo o mundo. Mesmo tendo participado daquele ano, Ventura estudou e pesquisou bastante cada detalhe e cada personagem do ano que entraria para a história brasileira e mundial.
No começo depara-se com uma apresentação sentimental e nostálgica de Heloisa Buarque de Hollanda. Ela elogia a precisão de Zu, como ela chama o amigo, ao recuperar os fatos e narrar tudo com objetividade. Em seguida, vêm os agradecimentos. Uma seqüência de três páginas de nomes e mais nomes a quem o autor mostra reconhecimento (que mais tarde mostra-se realmente necessário devido à riqueza de informações que foram dadas a Zuenir). Logo se pensa que as folhas a seguir vão tratar de um 1968 dos amigos, da geração de amigos que muito queria e desejava para o país. Não deixa de ser assim. Mas não é tão superficial. Aborda-se uma juventude cheia de sonhos e ideais, que lutou muito para melhorar o país. E, citando a própria Heloisa, o texto te pega pelo pé. A leitura envolve, a história inebria e começa a surgir uma vontade de ter feito parte do ano que não terminou.
A descrição de 68 é iniciada com o “Réveillon da casa da Helô”. Uma festa que marcou a vida dos que lá estavam. Tipos diferentes de pessoas e ideologias juntos em uma mesma casa. Embalados com muita bebida e drogas. Ventura diz que até hoje não se sabe bem o porquê da confusão que se formou. Todos bateram ou pelo menos apanharam, segundo o jornalista. Mais parecia um presságio do ano que acabava de chegar.
Em seguida, o escritor vai descrevendo aquela geração e expondo os desejos, sonhos e realizações que a juventude pretendia alcançar. Como um bom jornalista, Ventura mostra com rigor seus amigos e companheiros de geração. Muitos famosos e conhecidos mundialmente aparecem em situações privativas e embaraçosas, alegradas pelo toque de humor dado pelo autor. Revelações de experiências sexuais, de opções sexuais, de drogas ilícitas, do que pensavam e sentiam cada um não foram escondidas. O que acaba “humanizando” pessoas que costumam ser idolatradas exageradamente. Porém, o que Ventura almeja é usar os amigos como exemplos da geração revoltada que, sem saber direito como, tinha como ambição mudar aquele Brasil ditatorial. Eles queriam evoluir e não mais cometer os erros da geração anterior.
A presença do autor naquele momento da história brasileira e as entrevistas feitas por ele para a obra resultaram em um livro bem detalhado e revelador. Ventura não deixa escapar nada. Ele consegue relatar os dois lados, ou talvez três: revolucionários, reformistas e militares. O que aconteceu por trás do que aprendemos nos livros de História do ensino médio pode ser visto no livro de Zuenir.
Mídia
A importância do rádio. A fraqueza da televisão. O cinema brasileiro que só os instruídos entendiam. A música, suas censuras e os festivais. As comentadas peças de teatro e seus artistas destemidos. Os grandes nomes brasileiros envolvidos nas atividades revolucionárias. As críticas e os artigos oposicionistas de Nelson Rodrigues. A coragem de Cesinha. A politicagem inescrupulosa dos militares. Nada escapa do autor.
Ventura consegue nos aproximar dos acontecimentos daquele ano. Sente-se a tensão e a tristeza com a morte de Edson Luis. O nervosismo e a apreensão antes e durante as passeatas. Consegue-se captar a intensidade e a importância da revolução estudantil para os jovens de “muitas idéias na cabeça”.
Com uma linguagem jornalística, ele ainda foi capaz de dar uma aula de história. O professor formado em Letras explicou a “luta pela rapadura”. Informou o leitor sobre as duas vertentes diferentes, revolucionária e reformista, que tinham o mesmo objetivo de acabar com a ditadura. Ele ainda menciona sobre os vietnamitas, que estavam em guerra com os americanos naquele ano. O movimento estudantil em Paris. Os protestos ao redor do mundo.
1968: o ano que não terminou revela que a decretação do AI-5 poderia ter sido feita seis meses antes e que Costa e Silva já tinha o texto do ato institucional todo em mente antes do dia 13 de dezembro. A censura pesada já havia começado antes e o povo não sabia que os “anos de chumbo da ditadura” ainda estavam por vir.
Zuenir Ventura retrata brilhantemente o ano interminável. O ano que pode ser considerado o da base para a nossa liberdade atual. E ainda faz mistério. Ele não revela se estava no famoso réveillon, se bateu e/ou correu. Se toda a precisão que teve ao descrever 1968 é devido somente às entrevistas ou à sua assídua participação em tudo.

