O roteirista norte-americano Christopher Vogler se baseou na obra O herói de mil faces, do estudioso de
mitologia e religião Joseph Campbell, e escreveu um memorando de sete páginas intitulado “Guia prático de O herói de mil faces”. Nele, Vogler descrevia a idéia do monomito (também chamado de Jornada do Herói). O memorando foi aprimorado e transformado no livro A jornada do escritor: estruturas míticas para escritores.
Vogler sempre foi fissurado por contos de fadas, desenhos animados e filmes. Por isso decidiu que lendo seria o modo como ganharia a vida e foi ser analista de histórias em alguns estúdios de Hollywood. Mesmo tendo avaliado vários romances, o labirinto das histórias ainda o intrigava. Na universidade, foi apresentado à obra de Campbell, o que considerou “uma experiência transformadora”. Na introdução ainda classifica o livro “ O herói de mil faces” como “uma tábua de salvação” e uma “ferramenta confiável” quando começou a trabalhar.
A jornada do escritor: estruturas míticas para escritores é dividida em duas partes. A primeira mapeia a jornada com um “guia prático” pelo qual Vogler menciona os doze estágios da jornada do herói e mostra quais são os três atos que freqüentemente são usados para construir os filmes. E ainda divide os arquétipos (personagens) mais utilizados. Ele conceitua e explica os arquétipos considerados básicos. O herói, o mentor, o guardião do limiar, o arauto, o camaleão, a sombra e o pícaro têm suas funções, seus defeitos, seus pontos atrativos e até suas variações apontados pelo autor.
A segunda parte fala, novamente, dos doze estágios da jornada. Dessa vez, as doze etapas são minuciosamente explicadas e caracterizadas. Mas isso torna o livro repetitivo e pode causar um cansaço no leitor. Sem falar do cunho restritivo que a obra possui. Afinal, os termos usados pelo autor são característicos do meio cinematográfico. E os questionamentos propostos no fim da descrição de cada fase são perguntas para serem refletidas por quem vai escrever ou produzir uma trama. Porém, Vogler sempre deixou evidenciado que o livro é totalmente direcionado para roteirista e futuros escritores.
No epílogo, o escritor que trabalhou anos nos Estúdios Walt Disney conta que a Jornada era usada na empresa para amarrar histórias e descobrir falhas. A afirmação pode ser considerada uma ousadia porque insinua que o padrão é infalível, mesmo após o autor ter dito que não é necessário seguir o molde proposto por seu livro para um filme comover o público.
Ainda no epílogo, o analista de histórias demonstra, avaliando quatro filmes, as idéias da Jornada do Herói. Os arranjos de modelos antigos nos filmes atuais são realmente feitos para conquistar o espectador e também para tornar o enredo da história mais convincente e envolvente. O exemplo do Rei Leão revela o objetivo dos roteiristas da Disney com o filme, o porquê escolhem animais como personagens, as discussões de bastidores sobre a inclusão de cenas de morte nos filmes infantis e inspiração em cenas de Hamlet. Os outros três, Titanic, Pulp Fiction e Ou tudo ou nada, também têm seus interessantes segredos de roteiro revelados e características comparadas com a Jornada.
Na obra, Vogler afirma que a Jornada do Herói é somente o esqueleto que deve ser preenchido com as surpresas das histórias de cada um. Diz que o importante são os valores, o resto são símbolos que podem ser mudados infinitamente de acordo com a adaptação que cada escritor fará. Contudo, mesmo a Jornada sendo “infinitamente flexível” ainda pode ser considerada um grande padrão para ser seguido por quem quer ter sucesso em seus filmes. Já que o esqueleto é, na verdade, quase o corpo pronto, que só precisa de detalhes adicionais, como olhos, bocas, orelhas. O que realmente diferencia cada história ou filme é o gênero, porque, segundo o próprio autor, os arquétipos e os estágios estão presentes tanto em romances quanto em aventuras e filmes de ação.
A jornada do escritor é um modelo, um roteiro de dicas para pessoas do meio fazerem ou melhorarem suas histórias e seus filmes. É uma visão de Vogler sobre o livro de Campbell, de onde ele retira as melhores informações sobre o labirinto da criação de narrativas. Campbell e seu livro inspirador são imensamente citados no livro de Vogler. Em uma única página o nome do antropólogo aparece nove vezes, uma mistura de admiração e exagero.
Como Christopher Vogler lembra “só se fazem novas descobertas quando se fica criativamente perdido, fora das fronteiras da tradição”. A “Jornada do escritor” é um bom livro para ajudar roteiristas e escritores a acertar ao fazer um filme. Entretanto, seu livro mostra todas as fases que devem ser seguidas para se produzir um filme que agrade o público, que produza um filme lucrativo e atraente. E isso nem sempre é algo positivo e pode indicar falta de capacidade criativa de quem usa a “chave mágica”.

