Profissionais, pacientes e familiares contam da dificuldade de enfrentar a doença e da semelhança com a história de “Caminho das Índias
A esquizofrenia, hoje, faz parte das tramas da novela do horário nobre da Rede Globo, de acordo com dados do Ministério da Saúde, atinge 3% da população mundial. No Brasil, 1% dos adultos apresenta a psicose, algo em torno de 1,8 milhão de brasileiros, sendo os homens os mais suscetíveis.
A doença é definida pela especialista em saúde mental e terapeuta ocupacional Nazareth Malcher como um quadro clínico em que o doente perde a noção do real. “A pessoa se desconecta das questões de realidade através de produção positiva das funções da mente”, explica.
Para o psiquiatra Fernando Rafael, a esquizofrenia é uma doença que acomete o corpo e a mente da pessoa sem que ela possa se defender ou se precaver. “O cérebro é inundado por uma substância chamada dopamina, produzida em excesso por neurônios que têm dificuldade para se conectar. Ninguém deve ser responsabilizado, nem o paciente nem a família”, afirma o médico. O psiquiatra ressalta ainda que o tratamento eficiente reduz a necessidade de internações e é capaz de devolver à pessoa a capacidade de ter uma vida normal, podendo trabalhar, estudar, divertir-se e formar uma família.
Não é possível apontar somente uma causa para a doença, de acordo com Nazareth. Aspectos orgânicos e emocionais ajudam no desenvolvimento da esquizofrenia. “O indivíduo não é só a mente dele, é composto por questões genéticas, psíquicas e sociais. É uma construção de vida, um processo que vai gerando uma patologia”, disse a especialista. Alcoólatras, drogados e pessoas que vivem sozinhas são mais propensas a desenvolver a psicose.
Wagner Gattaz, médico psiquiatra e professor da Universidade de São Paulo (USP), diz que os sintomas podem não ser evidentes. Em entrevista com o médico Dráuzio Varella, Gattaz conta que as características da doença são muitas vezes confundidas com oscilações próprias da adolescência ou com outras doenças psiquiátricas como, por exemplo, a depressão.
Segundo Nazareth, os sintomas da esquizofrenia são classificados em positivos e negativos. Excesso de fala, delírios, falas sem lógica e alucinações são exemplos dos sintomas positivos. Já os negativos são marcados pela falta de apetite, de sono e de interação social. “É definido ‘positivo’ porque é produção das funções, os negativos são os que afastam mais ainda o paciente do mundo”, afirma a terapeuta.
Nazareth trabalha há sete anos no Hospital São Vicente de Paula (HSVP), em Taguatinga (Distrito Federal), que trata de pessoas com transtornos mentais. O centro psiquiátrico atende todo o DF, além de Minas Gerais, Goiás e parte do Nordeste, representando 14,6% dos pacientes. O HSVP possui três linhas de atendimento ao paciente: “O programa Vida em Casa, que acompanha o esquizofrênico em seu território; a parte ambulatorial, só para manutenção do quadro e a internação, emergência, para intervenção com a crise”.
José Alves Ribeiro, 44 anos, é usuário do hospital há pelo menos 10 anos. Sua esposa, Maria Salomé da Silva, o levou após ser encaminhada por um médico da triagem do Hospital Regional de Taguatinga (HRT) que disse que só no HSVP José poderia ser cuidado. Zé, como é conhecido no hospital, conta que com sete anos de idade apresentou problemas de epilepsia, mas como morava no “interior bruto” do Ceará não fez tratamento e nem procurou médicos. “Só tinha um jegue lá e levava uma semana para chegar ao médico”, comenta.
Devido à falta de cuidados, Zé se tornou um paciente crônico. Com o passar dos anos a depressão foi surgindo e o quadro foi evoluindo até se agravar para crises esquizofrênicas. Maria conta que o marido passou dias sem levantar da cama, sem comer e sem tomar banho. Ela diz que não sabia o que deveria ser feito, até quando Zé teve a primeira crise e acabou indo para o HSVP. Dessa vez, foi medicado e internado, permanecendo amarrado no ambulatório do hospital. “Tive que assinar um termo de responsabilidade para tirar ele de lá, porque não conseguia ver ele amarrado”, declara a esposa.
Maria assume que não conseguia lidar direito com o marido doente e até hoje sabe da dificuldade em aceitar a doença, mas aprendeu a conviver. Ela conta das pessoas abandonadas no hospital, tristes, sem cuidados e que não deixaria Zé naquela situação devido à criação familiar que recebeu.
Assim como acontece na vida real, a novela de Glória Perez Caminho das Índias mostra a família como peça fundamental tanto no tratamento quanto no agravamento da esquizofrenia. No folhetim existem dois personagens que convivem com a patologia. Ademir, personagem de Sidney Santiago, é um jovem negro de família de classe baixa que faz tratamento em uma clínica psiquiátrica desde o início da trama. Já Tarso, vivido por Bruno Gagliasso, é de uma família de empresários e foi desenvolvendo a doença ao longo da história.
A diferença entre os dois esquizofrênicos está no apoio da família. A mãe de Ademir, mesmo sendo de origem simples, aceitou a doença e buscou tratamento para o filho. No entanto, os pais de Tarso negam a condição do filho, pois se preocupam com o preconceito da alta sociedade em relação à psicose. A mãe de Tarso recusa levar o filho ao psiquiatra e prefere dar remédios para mantê-lo dormindo. Sem acompanhamento médico, Tarso tem sucessivas crises e toma atitudes inconscientes, como no capítulo do dia 18 de junho, em que tentou matar o ex-cunhado.
De acordo com Nazareth a importância da novela para o público é a demonstração do processo que leva à doença. “Não é de uma hora para outra. É uma construção histórica de contexto familiar”, declara a especialista. Para Maria, o assunto é retratado corretamente. Pois seu marido ficava agressivo, indicando uma nova crise. “Ele ficava violento, quebrava tudo, não enxergava nada. Via bichos, ouvia vozes”, conta.
Zé e Maria concordam que a esquizofrenia não tem cura e sabem da importância dos medicamentos. “Sem a medicação o Zé tem crises na hora”, confessa Maria. “Não consigo mais viver sem os remédios. Eles controlam um problema, mas desregulam outros”, revela Zé, que sente tremores pelo corpo, falta de ar e cansaço devido à medicação. Com isso, além do tratamento psicológico e psiquiátrico, é necessário um acompanhamento nutricional e cardiológico.
“As seções (psicológicas) oferecem psicoterapia individual com foco em mecanismos de enfretamento das crises”, explica a psicóloga Karina Barone, graduada e doutora pela USP. Karina, que é professora do Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb), acredita no trabalho de terapia familiar para aprender a lidar com as dificuldades da esquizofrenia. Ela explica que existem várias linhas de atendimento com o paciente. “Tarefas e formas de se expressar, mas sempre com base nos diálogos”, conta Karina.
Atualmente, Zé frequenta o HSVP duas vezes por semana para participar das oficinas existentes. Ele e seus amigos pintam quadros, confeccionam tapetes de retalhos e bijuterias. Zé lidera uma luta na Câmara Legislativa para conseguir carteira de artesão. Só assim poderá vender seus trabalhos nas ruas e aumentar a renda mensal, já que sua família sobrevive somente com o dinheiro do auxílio-doença pago pelo Governo do Distrito Federal.
Centros de Atendimento
Criados para serem os principais serviços substitutivos aos manicômios, os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) cobrem apenas 55% do país, com indicadores que variam de regular a crítico em dez unidades da Federação, incluindo o Distrito Federal. A proposta é atender o paciente sem retirá-lo do convívio da família e da comunidade.
As equipes mínimas de cada Caps são estabelecidas por portarias. Englobam profissionais com formação em saúde mental, além de assistentes sociais, acompanhantes terapêuticos, entre outros. No papel, são locais que vão além do tratamento. Seriam uma espécie de segunda casa, onde o paciente faz as refeições, participa de terapias ocupacionais, trabalha em programas de geração de renda. Até o transporte para que ele se desloque de sua residência aos centros é previsto.
Quatro entre as seis unidades da Federação apontadas como as que têm o melhor atendimento de Caps são nordestinas. As três primeiras colocações estão em Paraíba, Sergipe e Alagoas, com mais de 80% de cobertura. Já a capital federal, segundo dados do Ministério da Saúde, é a penúltima unidade da Federação em cobertura de Caps, perdendo apenas para o Amazonas.

José Alves mostra a produção de um dos seus trabalhos na oficina do HSVP
Reportagem escrita por Indira Efel, Lorena Brant e Mariana Oreiro.
Gostei muito do seu texto. Não assisto novela, mas há um filme de um homem professor de matemática em uma universidade com este problema e pelo apoio que recebeu de sua esposa consegue conviver com a doença e recebe o Prêmio Nobel.
Fico feliz que você tenha gostado do texto e agradeço o elogio. E esse filme que você mencionou é “Uma mente brilhante”, baseado na história do matemático John Nash. Ele é esquizofrênico e ganhou o Prêmio Nobel de Economia de 1994.